O QUE NOS TROUXE O 25 DE ABRIL?

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segunda-feira, 04 de maio de 2026

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A pergunta “o que nos trouxe o 25 de Abril?” continua a ecoar, sobretudo quando confrontada com as contradições do presente. Vivemos numa sociedade que se proclama moderna, livre e igualitária, mas onde persistem desigualdades profundas, muitas vezes disfarçadas por discursos progressistas.

Ser mulher hoje é, em muitos aspetos, habitar esse paradoxo. Por um lado, houve conquistas inegáveis: o direito ao voto, à educação, à participação política e ao trabalho em praticamente todas as áreas. Por outro, subsiste uma estrutura social que continua a exigir mais das mulheres do que dos homens, tanto no espaço público como no privado.

A igualdade proclamada no discurso não se concretiza plenamente na realidade.

A desigualdade salarial é um exemplo evidente. Apesar de desempenharem funções idênticas, muitas mulheres continuam a receber menos do que os seus colegas homens. Este desequilíbrio não é acidental — resulta de um sistema que ainda associa o masculino à autoridade e à competência, e o feminino ao cuidado e à secundarização. A meritocracia, tão frequentemente invocada, revela-se assim incompleta, quando não

enviesada.

A par disso, a mulher contemporânea é frequentemente confrontada com a exigência de ser tudo ao mesmo tempo: profissional competente, mãe dedicada, parceira presente, gestora do lar e suporte emocional dos outros. Este ideal de “supermulher”, tantas vezes romantizado, oculta uma sobrecarga persistente. A divisão das tarefas domésticas continua, em muitos lares, profundamente desigual, e o trabalho invisível — não remunerado nem reconhecido — recai maioritariamente sobre as mulheres.

Também o crescente individualismo agrava este cenário. A lógica do “cada um por si” fragiliza as redes de apoio e desvaloriza o coletivo. Num tempo em que muitos jovens são absorvidos por dinâmicas digitais e pela necessidade de validação constante, corre-se o risco de empobrecer a dimensão relacional e empática da vida em sociedade.

O essencial — o respeito, a solidariedade, a consciência crítica — tende a ceder lugar ao superficial.

Perante isto, será justo dizer que o Revolução dos Cravos não trouxe nada ou trouxe pouco? Não. O 25 de Abril abriu portas fundamentais: pôs fim a uma ditadura, instituiu a liberdade de expressão, permitiu a organização política e sindical e lançou as bases de um Estado social. Sem esse momento, muitas das conquistas atuais —

incluindo os direitos das mulheres — não seriam possíveis.

Reconhecer esse legado, contudo, não impede uma leitura crítica do presente. Os ideais de abril — liberdade, igualdade, justiça — não são garantias definitivas; são compromissos que exigem vigilância, reinvenção e ação contínua. O facto de persistirem desigualdades não significa que nada mudou, mas antes que o processo está

inacabado.

O desafio atual é, precisamente, esse: transformar direitos formais em realidades efetivas. A igualdade inscrita na lei tem de se refletir nas práticas quotidianas. Isso implica mudanças estruturais e culturais — questionar papéis de género, redistribuir responsabilidades, valorizar o cuidado como dimensão social e promover uma educação que forme cidadãos críticos e solidários.

Ser mulher hoje continua a ser, em muitos contextos, um exercício de resistência — mas também de construção. Não apenas na denúncia das injustiças, mas na criação de alternativas e na afirmação de novos equilíbrios.

A memória de abril não pertence apenas a quem o viveu, mas também a quem o compreende e lhe dá continuidade.

Mais do que um conjunto fechado de conquistas, o 25 de Abril deixou-nos uma possibilidade: a de continuar a construir uma sociedade mais justa.

Fui professora e vivi o 25 de Abril na faculdade, numa altura que já era maior, e disso posso falar sem problemas. Infelizmente, são muito poucos os que restam e acho que já estou a repetir a crónica anterior.

A resposta à pergunta «O que estamos a fazer ou já fizemos com o 25 de Abril?»

dirá muito sobre o estado da nossa democracia e sobre o futuro que queremos construir,

mas quem a isso pode responder é a classe política que põe e dispõe como lhe apetece.

A questão permanece — não como lamento, mas como exigência:

o que estamos, de facto, a fazer com aquilo que Abril nos trouxe?

E o tempo, também ele completamente baralhado, veio dar uma ajuda.

Reflitam. Que queremos para o nosso país?

Também disponível no website da Reflexo Digital

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