Apresentação do romance (Des)encontros à Beira-Mar,
ao vivo no YouTube, 13 de outubro, às 22h30
FLAL Festival Show Nacional - 15.ª Edição: Jardim da Literatura
Apresentação do romance (Des)encontros à Beira-Mar,
ao vivo no YouTube, 13 de outubro,
às 22h30
FLAL Festival Show Nacional -
15.ª Edição: Jardim da Literatura
"Um encontro casual entrelaça o destino de duas pessoas.
Unidas, descobrirão que o amor esconde tempestades."
"Um encontro casual entrelaça o destino de duas pessoas. Unidas, descobrirão que o amor esconde tempestades."

Concurso de Textos Anónimos, Evento Literário Online
do FLAL Festival de Literatura e Artes Literárias
(21 de setembro a 30 de outubro de 2026)
15.ª Edição: Jardim da Literatura
Concurso de Textos Anónimos, Evento Literário Online do FLAL Festival de Literatura e Artes Literárias (21 de setembro a 30
de outubro de 2026)
15.ª Edição: Jardim da Literatura
Certificado de Classificação que concedemos em reconhecimento
à sua destacada classificação em 3.º lugar na Categoria Poesia.
Certificado de Classificação que concedemos em reconhecimento à sua destacada classificação em 3.º lugar na Categoria Poesia.
de Maria Teresa Portal Oliveira
Apareceram palavras pequeninas
Surgidas do nada.
O sol dava luz ao mundo
Ao espaço profundo;
A lua com ele trocava
E as noites enluarava.
Só aparecia no negrume,
Quando ele mergulhava no mar.
A mãe e o pai filhos geraram.
E as três letras comandaram:
significado magistral: sol, lua, mãe, pai.
O mar regressou,
com a natureza a reboque
Os pés lhe beijou, simples toque.
Trouxe a brisa
Leve, suave, meiga
Que a pele acariciava
E o cabelo esvoaçava.
As folhas coloridas
formaram o tapete
e coloriam o corpete
do traje de Viana
da Srª da Agonia,
festa cheia de cor e harmonia.
A flor bordada a ouro
rodeada de pétalas de prata,
bordadas a ponto pé de flor,
era de enorme beleza.
A noite deu-lhe a grandeza
Eram estrelas
Que levavam ao peito
e traziam o dia
para a festa afamada.
Não havia relógio, só alegria.
E a rapaziada dava ao pé,
em grande sintonia,
Sem perder a energia.
E o sol e a lua continuaram
a caminhar trocando,
sempre sem engano
Noite, dia, noite, dia…
a perseguir o calendário
que as gentes não entendiam.
Andava tudo ao contrário.
As estações baralhavam-se,
lá onde morava o tempo…
E ora aparecia uma, ora aparecia outra.
«Ó tempo, dá um jeito nisso!»
gritavam as gentes zangadas,
logo de manhã alvoroçadas.
Ora chovia, ora sol fazia
e ninguém se entendia.
De manhã inverno, à tarde verão…
Isso era o provérbio…
Março, marçagão…
Porém, era setembro.
A temperaturas altas sucediam-se
temperaturas baixas, no mesmo dia.
Era uma mistura de fogo e água,
de terra quente e ar fresco,
que faziam chorar.
Tantas alterações
provocaram interrogações.
Ninguém sabia por onde se virar.


Concurso de Textos Anónimos, Evento Literário Online
do FLAL Festival de Literatura e Artes Literárias
(21 de setembro a 30 de outubro de 2026)
15.ª Edição: Jardim da Literatura
Concurso de Textos Anónimos, Evento Literário Online do FLAL Festival de Literatura e Artes Literárias (21 de setembro a 30
de outubro de 2026)
15.ª Edição: Jardim da Literatura
Certificado de Classificação que concedemos em reconhecimento à sua destacada classificação em 1.º lugar na Categoria Contos.
Certificado de Classificação que concedemos em reconhecimento
à sua destacada classificação em 1.º lugar na Categoria Contos.
de Maria Teresa Portal Oliveira
Pela janela entreaberta, o sussurro da água do repuxo do jardim entra de mansinho na companhia da frescura da noite estrelada. Deitada, espera que o sono espreite e lhe venha fazer companhia, mas o escuro desperta-lhe outros sentidos: o olfato e a audição.
O vento recomeça a soprar com alguma força e a cortina da janela esvoaça, enquanto o cheiro a terra molhada invade o quarto. É tão agradável! Depois do calor do dia, a terra recebe a rega, agradecida e ávida, e lança para a atmosfera aquele cheiro tão característico e tão bom.
Que fazer? Contar carneirinhos? Não dá efeito. Depois, os ruídos e os sons que vêm de fora teimam em despertar-lhe os sentidos e em trazer-lhe recordações… extremamente dolorosas. A água do repuxo chora agora em uníssono com um coração que enlutou já faz tempo, mas ainda não encontrou sossego nem paz. As cigarras, acaloradas e dispostas para a sinfonia, recomeçam o seu canto monótono e incomodativo. A folhagem acariciada pelo vento transporta mensagens incompreensíveis para uma alma sofredora, que se recusa a encarar a perda. Apenas restam cinzas e um desgosto que comprime e oprime até a dor se tornar física, sentida a toda a hora. Não é por acaso que o sono lhe recusa a sua companhia. É triste e vazia, como esvaziada é a vida que vive no momento. Apenas uma corda vibra ainda no violino do seu ser, que não chegou a ser partida.
A da natureza!
Não consegue resistir a um mar tempestuoso com as ondas rasgadas por relâmpagos que se entrecruzam nos ares. Da mesma forma, a tempestade na serra, espetáculo impressionante, com as árvores erguendo os ramos, quantas vezes nus e despidos, numa prece de sossego e calmaria a empolga. E o deserto? Ondulando, qual serpente gigantesca, o vento ululante impele e transporta as areias, formando novas dunas, alterando completamente a paisagem despida e solitária. Na encosta da montanha, a lava escorre queimando e arrastando tudo à sua passagem. O bafo do vulcão acompanha-a e leva o sabor do inferno até ao vale estático e assustado, galgando muros e invadindo o mar. Cresce a terra, após a destruição.
O pensamento, voando veloz em tais cenários, não se acalma. Por que não pensar em paisagens aprazíveis, de uma beleza apaziguadora? Para ela, isso é tão diferente como a distância que separa o estático do dinâmico. A paisagem que se pinta facilmente é bela, harmoniosa, quase inativa. Já a que luta exige muito ao pintor para lhe apanhar a raiva, a dor, a força, o dinamismo interior. A primeira vê-se, a segunda observa-se, sente-se, vive-se.
Característica do seu feitio, talvez, gostar do que é difícil. Nunca fora fácil. Direta, quanto basta, procurava ser assertiva, mas nem sempre era possível. Fervia em pouca água, como se diz. Gostaria de ser como a Natureza. Lançar raios e coriscos sem pensar nas consequências: cheias, tempestades, derrocadas, furacões, terramotos, maremotos...
Depois, logo se seguiria a calmaria.
Assim, quando a dor teima em permanecer cerrada no âmago do ser, sem permitir que nem pequenas raízes possam vir à tona, é tudo muito mais difícil de superar. E, então, resta remoer uma vez e sempre, as mesmas dores mal superadas… e permanecer noites e noites, acordada, na companhia da insónia, fiel parceira do infortúnio e dos que padecem dores que parecem não terminar nunca.
Dor superior à de perder um pai e uma mãe, só a de perder um filho. E a imagem do pequenino perseguia-a. Não gozara a maternidade.
Após uma gravidez problemática, seguira-se um parto difícil e prematuro, tendo a criança nascido com graves problemas respiratórios. Apenas vivera umas horas, lutando como um verdadeiro guerreiro, mas acabara por sucumbir.
Caíra em depressão profunda e, agora, que começava a sair do “poço” onde se afundara, sentia dificuldade em voltar a respirar, a viver a vida, quando a outra se finara.
Porque lhe infernizara a vida, reconhecia, o Duarte tinha saído de casa. Ela não queria ajuda, recusava-a mesmo e ele tinha de fazer o luto, pois também ele perdera o filho, mas recusava-se a deixar-se esmagar pela dor e queria lutar para reganhar a vida. Alegrias e tristezas fazem parte intrínseca dela e ciclicamente todos sabem que vão sofrer e não compreendia a sua negação e a sua incapacidade de dar a volta. Queria era levá-lo com ela para um inferno que ele recusava. Oferecera-lhe o ombro e ela recusara-o egoisticamente, pensando apenas em si.
— Aprenda a viver um dia de cada vez! — dissera-lhe o psiquiatra. — Cada dia que passa é uma vitória ganha!
Deus! Só ela sabia o preço de cada uma dessas pequenas batalhas ganhas. Sentia-se vazia, sem alma. Era apenas um corpo autómato que obedecia a comandos externos que faziam mexer os músculos e estes comandavam o corpo, sustentando o esqueleto.
Já não tinha mais lágrimas para chorar. A fonte secara, contudo, a dor teimava em apertar-lhe o coração como um garrote, a ponto de quase a sufocar.
Levantou-se mais cansada do que quando se deitara, e veio até junto da janela entreaberta para apanhar um pouco de ar fresco que lhe refrescasse as fontes escaldantes.
A sua vida era um círculo vicioso, um carrossel vertiginoso de onde não conseguia sair, apesar de sentir a cabeça a andar à roda; uma montanha russa que ameaçava ruína e que a projetaria para o espaço…
Às vezes, chegava a desejar que isso acontecesse. Seria um caminho bem menos pedregoso para percorrer o acabar com tudo. Deste modo, deixaria de se sentir um boneco animado, um ser vegetativo, sem vontade própria.
Dar conselhos, passar “receitas” estava ao alcance de cada um, agora segui-los era outro assunto. Em alguns momentos de maior calma interrogava-se por onde andariam o seu amor-próprio, a autoestima, a autoconfiança que sempre haviam estado presentes no desenrolar da sua vida pessoal e profissional.
Debaixo de quatro palmos de terra, junto ao corpinho tão frágil do pequenino que lhe fora roubado, respondia-se. Fora buscar forças aí, a esse olhar e, se hoje começava a despertar novamente para a realidade, se descobrira outra razão para a sua existência, isso devia-se a esse simples abrir de olhos.
Entretanto, o vento abrandara e uma claridade difusa começou a adivinhar-se para o nascente. Apesar da hora matutina - eram quase cinco da manhã, os primeiros raios de sol faziam a sua aparição lá longe, por detrás dos montes. Os ares ainda puros dos pinhais do Marão que a inebriavam desde que tinham optado por viver naquela zona. Mas da janela podia observar a vinha, a cultura dominante nas zonas habitadas das encostas meridionais.
No beiral da casa, a pardalada começava a dar sinais de vida. Quem cedo se deita, cedo madruga. O canto do galo do vizinho fazia-se ouvir já há algum tempo a anunciar o dia, bem como o ladrar dos cães que, presos no canil, ansiavam pelas horas de liberdade que o empregado lhes dava durante a manhã, antes do pessoal se levantar.
De novo presa ao ritmo diário de mais um dia de verão que dava os primeiros passos, manteve-se ainda absorta durante algum tempo, de pé, encostada ao parapeito da janela.
Um bocejo súbito e um cansaço enorme lembraram-na de que ainda não fechara os olhos e que, naquele momento, talvez conseguisse conciliar o sono ou cochilar.
Deitou-se e esperou que a moleza a vencesse e lhe fechasse as pálpebras pesadas de sono. Nunca soube se dormiu ou passou pelas brasas. Apenas sentiu que uma súbita leveza invadia o seu ser e que flutuava.
Uma estranha paz inundou-a e, ao olhar para os braços, viu que embalava um pequenino que abriu os olhos e, feliz, viu que era o seu menino. Estendia-lhe uma flor – a rosa branca que levara nas mãos frias.
Uns falaram em embolia, outros em trombose, outros em aneurisma, outros em AVC…
Morreu a sorrir, feliz pela primeira vez em tanto tempo...

Concurso de Textos Anónimos, Evento Literário Online
do FLAL Festival de Literatura e Artes Literárias
(21 de setembro a 30 de outubro de 2026)
15.ª Edição: Jardim da Literatura
Concurso de Textos Anónimos, Evento Literário Online do FLAL Festival de Literatura e Artes Literárias (21 de setembro a 30
de outubro de 2026)
15.ª Edição: Jardim da Literatura
Certificado de Classificação que concedemos em reconhecimento
à sua destacada classificação em 3.º lugar na Categoria Contos.
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de Maria Teresa Portal Oliveira
de Maria Teresa Portal Oliveira
A Dª. Elvira era uma mulher mesquinha e má que se regozijava com o mal alheio. Era a coscuvilheira da aldeia, mas, naquela manhã solarenga, quando fazia o que mais gostava – falar da vida dos outros e denegrir este ou aquele aos olhos desta ou daquela, perdeu as palavras.
Mas tinha uma virtude, que ninguém entendia. Não se dava com os humanos, mas tudo quanto fosse animal corria para ela e ela acarinhava-os, socorria-os, dava-lhes de comer. Quando havia problemas na aldeia que metesse um animal, lá estava ela para o defender e culpar o homem, mulher ou criança que estivesse envolvido na contenda.
Desta forma mantinha oito gatos que se vinham roçar nas suas pernas e um cão, um rafeirito que fora abandonado e que dava pelo nome de: Tejo. De escanzelado passara a um belo animal, com pelo brilhante, e um feitio do diabo, não deixando que ninguém entrasse na propriedade da dona, nem mesmo o desgraçado do carteiro a quem já dera uma ou duas mordidelas quando o apanhara a jeito.
Naquele dia, a Dª Elvira não ficou rouca, não se engasgou, apenas… deixou de falar. Mal nunca visto, o Dr. Fala-barato não encontrou explicação para a maleita que resistia a todos os remédios, xaropes, cápsulas ou comprimidos. Do alto dos seus quase dois metros, apenas conseguia balbuciar, abanando a cabeça der um lado para o outro, muito lentamente, como que a fazer novos cálculos ou a tirar outras medidas. «Não sei o que aconteceu. Não. N… N…»
Se a Dª. Elvira pudesse falar, usar a sua arma favorita, palavras mortíferas e peçonhentas tê-lo-iam atingido, sem dúvida nenhuma. Porém, infelizmente (para ela, não para os outros que respiravam aliviados!), só podia também ela abanar violentamente a cabeça e gesticular, transformada em marioneta manipulada por um acaso do destino.
Irritada, furibunda, abandonou a aldeola remoendo injúrias e prometendo vingança com gestos bem elucidativos. Mas não se esqueceu de pedir à vizinha que deitasse uns olhinhos aos seus animais, que ela não sabia quando vinha e os bichinhos não tinham culpa da sua desgraça.
Apanhou, então, a carreira e tomou o rumo da cidade grande onde havia especialistas que poderia consultar, os otorrinolaringologistas, nome que desconhecia e difícil de pronunciar. Não interessava. Tinha de encontrar o tal oto qualquer coisa que havia de lhe curar o mal e, recuperadas as palavras, poderia devolver àquela maldita gentalha as injúrias e os risos escarninhos.
Pobre Dª. Elvira! Tão amarga e venenosa, nem via que era ela com as suas atitudes que provocava a malquerença dos seus conterrâneos. Quem podia suportar uma mulher que virava tudo do avesso, interpretava tudo de forma errada? Como é que os animais a adoravam se era um estafermo para demais?
O dia na cidade grande não lhe correu de feição, já que o único médico que consultou a pôs fora do consultório, quando ela o ameaçou com a velha sombrinha sempre presente. Elvira não se entendia com as palavras escritas.
Sabemos nós que se entendia às mil maravilhas com as orais, principalmente as maldizentes, intriguistas e difamadoras. Só que estas e as outras tinham fugido a sete pés (e com razão). Será que as palavras amáveis, bondosas e compreensivas tinham dado ordem de marcha às tais caluniadoras? Assim sendo, como é que haviam desaparecido todas?
Já na rua, resmungando com os seus botões e gesticulando como uma doida, resolveu procurar uma pensão para passar a noite.
No dia seguinte, havia de encontrar um outro oto qualquer coisa que a entendesse e compreendesse o seu sofrimento.
Nessa noite, dormiu mal e acordou espavorida por duas ou três vezes. Via-se num amplo salão cheio de janelas onde estavam reunidas todas as palavras do léxico da língua portuguesa. Quando ela entrava, todas pareciam bichanar algo que não conseguia distinguir e lançavam-lhe olhares abespinhados, de soslaio, como quem não quer a coisa. Depois, o juiz, sentado num cadeirão (pintado à mão a dourado e estofado a veludo), colocado num estrado, dizia com um ar pomposo e circunstancial: «Dª. Elvira, nós, as palavras da língua de Camões queremos reiterar a nossa indignação…» E… ela acordava sempre nesta ocasião. Nunca conseguia ouvir o discurso até ao fim.
A noite aproximava-se do seu fim e ela estava arrasada, exausta e sentia a falta dos seus bichinhos. Não tinha pregado olho e o dia não ia ser fácil.
Mal o dia se levantou, aproveitou para sair da pensão, não sem antes ter posto os cabelos da rececionista em pé com as suas reclamações não proferidas, o que ainda a indignava mais. Parecia enlouquecida e os sons que proferia assustavam qualquer um.
Já no passeio, onde se viam os primeiros transeuntes que se encaminhavam a passo apressado para o emprego ou para o transporte que necessitavam de apanhar, a Dª. Elvira olhou esgazeada para todos os lados.
Não se atrevia a interromper os passos a ninguém com medo de ser empurrada e acabar por ser atropelada.
Desesperava, quando ouviu uma voz afável:
— Posso ajudá-la, minha senhora? Parece perdida!
Voltou-se e ficou a encarar uma enorme bigodaça no meio do rosto bonacheirão de um polícia.
Ai, a Dª. Elvira tinha duas fraquezas que nunca confessara a ninguém: os bigodes e as fardas. Por isso, sentiu logo que as pernas fraquejavam perante a imponência do apêndice facial. Ficou ruborizada e ficou sem fala (o que, aliás, já é do nosso conhecimento, só que mesmo que as palavras não lhe tivessem virado as costas, não as teria conseguido balbuciar tal a sua atrapalhação).
O guarda, todo ufano do resultado conseguido com tão distinta dama (não nos esqueçamos que desconhecia o feitio da dama em questão!), voltou a questionar:
—Posso ajudá-la?
A custo, retomando o sangue frio, ela procurou fazer-se entender à custa de muitos gestos. Ao ler nos seus olhos que a julgava fugida de algum manicómio, resolveu dar-se por vencida, puxou da sua agenda e escreveu:
— Perssizo de um oto. Num comcigo falare.
Num segundo, a distinta dama ficou reduzida à sua insignificância.
O polícia olhou-a compadecido:
— Precisa de quê?
— Médico da voxe — leu de novo.
Então, ele pegou na agendinha e lá escreveu o nome de um otorrinolaringologista que ficava a dois quarteirões dali. Desenhou-lhe um esquema e devolveu-lha.
Era a primeira vez que alguém era bondoso com ela. E foi com os olhos cheios de lágrimas que lhe agradeceu.
A Dª. Elvira foi à consulta e, para além dos medicamentos que ia tomar para a bruta infeção nas cordas vocais, recomendaram-lhe que, por uns tempos, falasse o mínimo possível.
Um sacrifício pesado, dirão vocês. Até nem foi. Desde aquele dia, a mulher refletiu e mudou de atitude. Era tão bom ter amigos!
Para os fazer, tinha de ser mais compreensiva e ter um feitio menos azedo. Aprendeu a ser mais cuidadosa com as palavras que proferia e a pensar duas vezes antes de falar mal de alguém ou de alguma coisa.
E os animais ajudaram-na, pois cativavam todos os miúdos que lhes apareciam pela frente, principalmente os gatinhos: o Pretinho, todo ele preto da cabeça à pontinha da cauda; o Resmungão, que tinha um feitio rezingão como a dona; a Fofinha, toda branquinha que parecia um algodão doce da feira dos dezoito; o Malandro, que lhe atacava as bolachas quando ela estava distraída; o Pinóquio, preto e branco, que adorava brincar com novelos de lã; a Rosinha, muito melada e docinha, e miava baixinho e ronronava sempre; o Trapalhão, que só causava desarrumação, não por querer mas por assim ser e, finalmente, o Lagarto, que, como o nome indica, adorava esticar-se ao sol e não fazer nada.
A catraiada juntava-se e brincava com os gatinhos, hoje gatos, e era uma diversão e, no fim, havia sempre sumo de laranja e pão com marmelada.
O Tejo também deu uma mãozinha, mas gostava mais de observar as brincadeiras da garotada do que nelas participar. Mas o Ruizito tinha uma predileção por ele e, não dormindo na escolinha, muitas vezes o vinham encontrar a dormir em cima do Tejo que não se mexia para o não acordar.
Então a velhota virara um doce, de repente?
Não, apenas ficou um pouco mais comedida e amável, aprendendo com os animais a cativar as pessoas.
Ainda tinha os seus repentes e mostrava o seu mau génio e dizia algumas palavras impensadas. Mas, se não tivesse razão, logo se retratava e, arrependida, procurava emendar o mal causado.
Acabou por ser uma mais-valia para a aldeia e, como conhecia muitas histórias do passado (algumas bem verdadeiras), começou a ser chamada às escolas da aldeia e da vila para falar com os alunos sobre as tradições, os costumes e a gastronomia daquelas gentes numa espécie de palestras intituladas.

Desafio lançado pelo Instituto Cultural de Évora (junho 2024)
Coletânea A Mulher e o Amor - "Amei-te sem saberes"
A presente coletânea pretende enaltecer duas datas celebratórias especiais, o Dia da Mulher e o Dia de São Valentim, e os sentimentos que por elas são despoletados, transformados, aqui em belas obras.

de Maria Teresa Portal Oliveira
Amei-te, não sabias
Olhavas e não vias
Estavas do avesso
Ignoravas a minha solidão
Negavas-me a tua mão
Vi-te sorrir
A face da lua corou
Perante o teu rir
Cristalino e suave
Voava qual ave
Rumo ao firmamento
Do meu contentamento
Sou feliz a amar-te
Mesmo que o não saibas.
Sou paciente,
Saberei esperar-te.
As noites as madrugadas
Até que acabes por entender
Serão desejadas.
Que o rubor do teu rosto
É o reconhecer o meu ser
Amei-te, procurei-te
Desesperei, mas encontrei-te.
3º Concurso Reinaldo Corona 2022 - Conexões
Ter-se-á o mundo finalmente conectado? [conto]. Menção Honrosa do 3º Concurso Internacional de Conto e Poesia Reinaldo Corona, Conexões. Brasil. 2021.

de Maria Teresa Portal Oliveira
Relampejavam dardos daqueles olhos. A face torcida num esgar de ódio olhava-me com repúdio, com nojo. Sentia-me discriminada mesmo sem verbalizar o que experienciava. Era visível que me detestava e eu não sabia porquê. Não me lembrava de o ter visto, de com ele ter alguma vez interagido presencialmente, por carta, e-mail ou telemóvel.
Estava certa de que não fazia parte do rol de conhecidos muito menos de amigos nem sequer daqueles com quem nos cruzamos frequentemente e, quantas vezes, nos interrogamos: "Conheço-o donde?"
Talvez de frequentarmos os mesmos lugares, de seguirmos as mesmas vias que nos levam ao trabalho, ao teatro, ao concerto, a um evento social que, por repetitivo, passamos ver os mesmos rostos, quem sabe: uns ficam na memória, outros desaparecem. Aquele não. Por mais que me esforçasse não havia reconhecimento por pequenino que fosse. Contudo, ele conhecia-me. Donde?
Aqueles olhos malévolos perseguiam-me e começaram a acompanhar-me de noite nos pesadelos que comecei a ter com frequência. Tormento recorrente que me incomodava e me impedia o descanso tão necessário porque andava assustada e depois vinham os olhos ao consciente quando me esforçava por compreender o motivo da minha aflição.
A necessidade de estabelecer contato era dele, não minha. Mas não devia ser coisa boa da forma como me olhava. Eram verrumas a perfurarem-me o cérebro sistemática e diabolicamente. Na altura, rezava um Padre-nosso e desaparecia, esfumava-se e eu acalmava.
De tanto pensar, consegui localizar a sua aparição no tempo: no começo da maldita pandemia que nos isolara e impedia todo tipo de contactos presenciais entre os seres humanos reduzidos ao contacto através da frieza das máquinas dos telemóveis, dos computadores, reuniões por zoom, skype ou qualquer outra plataforma que permitisse ver os rostos dos entes queridos, já que os abraços, os beijos, as viagens entre concelhos e distritos em quarentena impediram o contacto humano. E assim se tinha passado um, passado dois anos... sem natais, sem páscoas, sem festas familiares, sem casamentos... com mortes de familiares, de amigos, de conhecidos com a doença ou outra maleita, enterrados em sacos quantas vezes na fase aguda da pandemia, sem o conforto da presença humana dos entes unidos por laços familiares ou de amizade.
Ao que o mundo chegara: só podem ir ao enterro quinze pessoas, só podem entrar no café quatro pessoas por mesa se fossem da mesma família... E todas essas medidas que nos isolavam eram um ataque contra a nossa sanidade mental. "O homem é um ser eminentemente social" dissera Aristóteles. As relações são o esteio com o qual nos mantemos uns com os outros.
E os efeitos negativos começavam a fazer-se sentir: a depressão, angústia, a indisposição, o medo tinham-se instalado nos que eram responsáveis, já que os imbecis continuavam a contornar as regras de distanciamento social e chegavam a recusar a utilização da máscara. O mundo tinha de se adaptar a essa nova condição de doenças que nos iam afligir de um modo permanente, pois atrás desta viria a outra, "cozinhada" ou não, a acreditar nos cientistas e nos pregadores do fim do mundo que fazem da catástrofe a sua vida diária.
"É o planeta a responder ao mal que lhe estamos a fazer!" dizia-se à boca cheia. E, na verdade, as cheias, as tempestades vieram juntar-se à pandemia causando ainda mais sequelas na já tão fragilidade mente humana.
Ansiosa de risos e sorrisos, de gargalhadas, de abraços, também eu começava a sentir os efeitos da falta de contacto, principalmente por estar na linha de frente há tanto tempo.
Naquele dia, a manhã estival acordou pardacenta e fria. Nem o tempo conseguia já manter o contacto com o calendário e sugerir as estações, e eu sentia-me com falta de ar e a cabeça doía-me fortemente. Se não fosse muito racional, teria sobre carregado a linha do SNS 24, mas sabia bem que a causa era falta de descanso e a minha asma assanhada pelo uso permanente da máscara.
Andei todo dia maldisposta. Era a primeira folga que gozava desde há mais de quinze dias, depois do último surto. E resolvi pôr a "escrita" em dia, fazendo os meus telefonemas pelo Whatsapp para ver os rostos de quem sentia tanta falta. Telefonei ao meu filho e nora, aos meus irmãos e sobrinhos e ainda demos umas gargalhadas, únicas carícias permitidas pela distância.
Depois de recarregar as baterias, arrumei a casa para espairecer. O trabalho diferente ajuda. Vivia sozinha, desde o casamento do meu filho (ainda não tinha netos) e a morte do meu marido antes da pandemia com um cancro silencioso no pâncreas. Mais um choque que me ferira inesperadamente e logo ele que era a boa disposição em pessoa.
E, de repente, apavorada, revi os olhos. E lembrei as palavras que, naquela noite trágica, ouvira na minha mente - "Não o salvas! Está perdido! Esse é só o primeiro!" E chorei desalmadamente, entregando-me à autocomiseração. Depois ergui a cabeça. Fosse o que fosse ganhara a primeira batalha mas não ganharia a guerra.
Nessa noite, o caos instalou-se a nível mundial. Houve um apagão geral. Não havia eletricidade nem computadores, logicamente.
Não precisei que me chamassem. No hospital, reinava a desordem e a desorientação.
- Ainda bem que veio, Dra Maria. Não sabemos quanto tempo vai durar o gerador e estamos a mudar os doentes todos para a mesma ala hospitalar. Mas acho que vamos precisar de apoio, porque de certeza que este apagão vai causar estragos. Ai que falta nos faz o Dr. André!
Assustada, olhou para mim, olhos húmidos, e eu consegui sorrir por trás da máscara. Neurocirurgião de primeira, uma referência mundial, e morrera aos quarenta e oito anos.
Preparei-me mentalmente para o inferno que estaríamos prestes a enfrentar (mais um) e com o pequeno rádio de pilhas que alguém desencantou não sei onde, começamos a ouvir as notícias que não eram animadoras. Acidentes nas estradas e em casa, pessoas trancadas em elevadores, inundações, incêndios, medo por todo o lado...
As ambulâncias começaram a chegar a uma velocidade assustadora. Feita a triagem, recebi um doente de um autocarro cheio que tinha capotado inexplicavelmente ao chegar à cidade, numa zona de ravinas bem perto do rio.
O condutor, com várias costelas partidas e um ferimento no fémur da perna direita, só berrava que a culpa não tinha sido dele; o volante tinha sido virado e tinham voado por uma ribanceira aos rebolões. Sem luz, os Bombeiros estavam a ver-se aflitos para conseguirem extrair os feridos da carcaça metálica.
O doente que me atribuíram tinha um ferimento grave perto da aorta e estava inconsciente. Parecia uma fonte a jorrar sangue. Ignorava se o conseguiria salvar. Comecei a dar ordens e, de repente, gelei. O homem abrira os olhos e eu vi aqueles olhos demoníacos que me incomodavam há tanto tempo. Não falou mas ouvi na minha mente "Não o vais salvar!"
- Dra Maria, Aconteceu alguma coisa? Sente-se mal?
Consegui engolir o vómito, fechei a minha mente e transformei-me na máquina que todos admiravam pela precisão dos cortes e pela rapidez de raciocínio. Ninguém me superava em sangue frio e capacidade de enfrentar situações extremas. Não seria agora aquele ali, fosse quem ou o que fosse, que me ia estragar ainda mais o dia.
O homem faleceu duas vezes, mas entre o desfibrilador e até uma massagem direta no coração, quando me diziam que estava morto, consegui que recuperasse. Foram cinco horas de inferno mas saí vitoriosa. Os outros nem viram nem ouviram mas eu vi um fumo escuro a elevar-se nos ares enquanto uma voz me dizia: "Não foi desta, será de outra vez!" Rezei um Padre-nosso. E acalmei.
Mentalmente exausta, ainda estive a operar durante mais de doze horas sem parar.
Quando a luz chegou, o horror da catástrofe era visível no sangue derramado na entrada do hospital que ainda não pudera ser limpo.
Ninguém conseguiu explicar o apagão mundial. Eu podia, mas alguém acreditaria em mim? Só o diabo ou forças diabólicas poderiam ser a sua génese para aumentar ainda mais o sofrimento existente na Terra. Felizmente, os homens da paz e todos os da linha de frente (médicos, enfermeiros, ajudantes) tinham mais uma vez correspondido bem como toda a outra gente.
Tinha havido uma conexão a nível mundial para minorar os prejuízos e enfrentar mais que a "pandemia". E, pela primeira vez, as notícias de interajuda mundial começavam a ouvir-se na comunicação social. Começava a falar-se na ajuda a povos desfavorecidos e ao planeta.
Teria o homem acordado? Estaria disposto a salvar a Terra e a humanidade que nela habitava?
No dia seguinte, fui ver o meu doente, algo receosa. E fiquei extremamente emocionada ao reconhecer naquele homem o meu padeiro que era um doce, um homem de bem.
Esperei nunca mais ver aqueles olhos... mas...
2º Concurso Reinaldo Corona (setembro 2020)
Fome [poesia] vencedora do 2º Concurso Internacional de Conto e Poesia Reinaldo Corona. Reflexões. Brasil. Setembro 2020. 2ªedição.

de Maria Teresa Portal Oliveira
Os olhos baços
O corpo esquálido
A magreza
O retrato da fome.
Olha em volta
Pasmada pela fartura
Com raiva surda
Da mesa imensa
Do explorador, do capitalista
Do rico senhor.
Mesa parca
A dor farta
Com água engana a fome
Falsa premissa
Dedos gélidos tocam-lhe
Beijos sem amor
Abraços de pranto
Lágrimas de sonhos frios
Nunca sonhados
Nunca pensados.
Tem calafrios
Quer protestar
Não consegue questionar
Impossível pensar
Bebe angústias
Recusa algemas
Renega correntes
Trinca nadas
Esmola.
Recebe penas
Recolhe piedade
Moedas pequenas
Anódina a vida humana.
À porta da igreja
Estende a mão
Prostrado no chão
Recebe pontapés
Humilhações
Aceita os desdéns
Sente abandono
Partilha medo
E a fome impõe-se.
O ocaso da vida
No horizonte estéril
As nuvens varrem o vento
As ondas embalam os barcos
A fome abraça o mundo
Num aperto profundo
Sem esperança
Sem retorno.
Ervas daninhas
Plantações queimadas
Água envenenada
Gado estéril
Terra infértil
Destruição pelo homem
A lua, impávida,
Mostra-se cheia
Fere o negrume da noite
Que se zanga com o luar
E não deixa o orvalho trabalhar
Nem os pirilampos aparecer
Para a Terra embelezar
E tudo voltar a renascer.
A fome deu a mão à ceifeira
Não deixa o homem sobreviver
22ª edição do Concurso Literário Prémio Dr. João Isabel (julho 2021)
Na Festa da Senhora [conto]. Menção Honrosa na 22ª edição do Concurso Literário Prémio Dr. João Isabel. Câmara Municipal de Manteigas. Portugal. Julho 2021.
Coletânea Philia de Contos Juvenis - Eu Leio um Conto (2021)
Ruivinho [conto]. Vencedor da Coletânea Philia de Contos Juvenis - Eu Leio um Conto. Brasil. 2021.
CHIADO BOOKS
Palavras[poesia]. Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea – Volume XI - tomo II. Chiado Boooks. Outubro 2019.
Uma viagem Inesquecível [conto]. Natal em Palavras - Coletânea de Contos de Natal. Volume II. Tomo II. Chiado Books. Dezembro 2019.
Meu Amor, minha Colombina [carta de amor]. Três Quartos de um Amor. Volume III. Tomo II. Chiado Books. Fevereiro 2020.
Houve epifania?[poesia]. Quarentena - Memórias de um País Confinado. Portugal. Too II. Chiado Books. Gosto 2020.
Somos Barro[poesia]. Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea - Volume XII - tomo II. Chiado Books. Dezembro 2020.
Liberdade Conquistada [poesia]. Liberdade - Antologia de Literatura Livre - Volume YII. Tomo II. Chiado Books. Abril 2021.
O Mostrengo [poesia]. Alma de Mar - Antologia de Literatura Contemporânea. Volume I – tomo II. Edição Portuguesa. Chiado Books. Agosto 2021.
Caminho a Percorrer [poesia]. Entre o Sono e o Sonho - Antologia de Poesia Contemporânea – Volume XIII - tomo II. Chiado Books. Dezembro 2021.
OS MUSIKÉ
Asas da Liberdade [poesia]. Os Musiké- Cadernos 2. Abril e Liberdade - Guimarães Vivências da Democracia. Abril de 2021.
Poesia Libertada [poesia]. Os Musiké- Cadernos 2. Abril e Liberdade - Guimarães Vivências da Democracia. Abril de 2021.
Portugalidade [poesia]. Os Musiké- Cadernos 2. Abril e Liberdade - Guimarães Vivências da Democracia. Abril de 2021.
47 anos depois - o 25 de Abril na 1ª pessoa [artigo]. Cadernos 2. Abril e Liberdade - Guimarães Vivências da Democracia. Abril de 2021.
Guimarães, Património Mundial da Humanidade [artigo]. Os Musiké-Cadernos 3 – Guimarães Património Mundial da Humanidade – 2001 nos 20 anos da efeméride 2021.
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