A Poetisa Esteve Amordaçada

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026


Estes últimos dias, fizeram-me refletir como me enraizei na tradição literária portuguesa.

Não me limito a admirá-la; procuro nela um espelho para compreender a minha própria identidade, a minha relação com a terra, com o mar, com os meus valores e com o sentido da minha existência.

E pensei nos meus favoritos:

Camões faz-me vibrar. Sempre fez. Não sinto apenas a admiração pelo maior poeta da língua portuguesa, mas identifico-me com a sua visão épica e humana. Reconheço nos seus versos a capacidade de exaltar o coletivo sem esquecer as fragilidades individuais. Tal como n` Os Lusíadas, onde a grandeza das navegações convive com as inquietações do amor, da perda e da condição humana, também eu encontro sentido, fruto de uma vida intensa e sofrida, nessa tensão entre o heroísmo e a vulnerabilidade. A sua lírica, marcada pela saudade, pelo desconcerto e pela reflexão sobre o amor e o tempo, oferece-me igualmente um lugar de reconhecimento e de conforto para a minha melancolia.

De Fernando Pessoa aprecio a multiplicidade. Compreendo que o ser humano não é uma voz única, mas uma multiplicidade de vozes interiores. Observo serenamente como Alberto Caeiro, que procura a verdade nas coisas simples e na contemplação direta da natureza. Mas também encontro afinidades com Álvaro de Campos, na intensidade emocional, na inquietação permanente em que vivo e na busca incessante de sentido. Entre o pastor que vê o mundo sem análise e o engenheiro que sofre por sentir demasiado, construo a síntese da minha vida.

A grande proximidade com Miguel Torga revela uma dimensão da minha personalidade. Como ele, sinto uma ligação telúrica à terra, não como simples espaço físico, mas como origem, pertença e destino. Aquele Douro Vinhateiro, que não me canso de repetir, dá eco à minha alma. Ao mesmo tempo, o mar surge como horizonte permanente, presença que desafia e consola. E é desafiante aquela espiritualidade paradoxal de Torga: um aparente ateísmo que, no fundo, não deixa de dialogar com o sagrado. Não uma religiosidade de dogmas, mas uma consciência do que ultrapassa o inscrito na natureza, no sofrimento humano e na beleza do mundo.

De Eça de Queirós gosto do olhar crítico e realista. Aprecio a capacidade de desmontar ilusões, de observar a sociedade com lucidez e ironia, sem perder o rigor intelectual. Em contrapartida, a leitura de José Saramago acrescenta uma dimensão de questionamento permanente, uma sátira que desafia convenções e obriga a repensar certezas. Através deles, aprendi que a literatura não existe apenas para celebrar o mundo, mas também para o interrogar.

Por fim, a afinidade com Sophia de Mello Breyner Andresen possui uma dimensão quase simbólica. Não partilho apenas referências literárias; partilho uma geografia afetiva. Sophia encontrava na sua casa branca da Granja uma relação íntima com o oceano. Eu, em Miramar, junto à falésia e ao mar, reconheço a mesma presença matricial das ondas, da luz atlântica e do infinito. Ambas habitámos lugares onde a paisagem se transforma em linguagem e onde o mar é mais do que cenário: é destino, memória e revelação.

Resumindo, sou uma portuguesa da linhagem dos que veem na literatura uma forma de habitar o mundo. Uma mulher que encontra em Camões a grandeza, em Pessoa a multiplicidade, em Torga a raiz, em Eça a lucidez, em Saramago a inquietação e em Sophia a harmonia entre a palavra e o mar. Alguém que vive entre a terra e o oceano, entre a dúvida e a espiritualidade, entre a memória e o sonho, fazendo da cultura portuguesa não apenas um património admirado, mas uma identidade profundamente vivida.

E, acabo por concluir que a poetisa fez a mulher refletir sobre quem era, não foi a romancista. Habituada a escrever crónicas, gosto de ir ao cerne da questão e explorar o tema como me dá na veneta. Passei e passo pelos romances, numa linguagem que em tudo é queirosiana e realista. Saramago dá o tom mordaz, por vezes, da minha escrita.

Sou direta e frontal, o que já me trouxe alguns amargos de boca e vai continuar a trazer, mas gosto de tratar as coisas pelo nome.

E acabo por concluir que, estando só agora a publicar a poesia, sou poetisa desde os meus vinte anos, a poetisa esteve amordaçada todos estes anos.

E voltarei a voltar a este assunto.

Não mandei ninguém «chatear o Camões»; o Camões é que me veio chatear a mim.

Viva Portugal!

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