Entrevista Escrita - 15ª Edição
do FLAL Festival Show Nacional
Se Eu Tivesse
Uma Borracha
1. Em que momento você percebeu que não apenas gostava de escrever, mas que precisava escrever?
Gosto de escrever desde sempre. Brincava com o dicionário para enriquecer o vocabulário. A necessidade surgiu em inglês. Comecei a dar aulas e não havia materiais na altura. Então inventava as histórias que punha nos testes e, mais tarde, na escola onde passei a maior parte da minha vida, trocava galhardetes com a minha colega. Eu escrevia para a revista inglesa «The Kids» e ela escrevia para o «Pequeno Jornalista», jornal que lancei e alimentei durante 30 anos na escola. Dei Jornalismo (um curso engendrado por mim, que chegou a ter 120 alunos e 4 professores) e Escrita Criativa, numa oficina de desenvolvimento para quem já era bom aluno, para puxar por eles. E na secção Dos Profs, quando não tinha ninguém, lá vinha a minha história infantojuvenil, pois a escola era do 2º e 3º ciclos, Agrupamento de Escolas das Taipas, onde lecionei, fui Delegada de Português (10 anos) e Subdiretora durante 25 anos. Tudo quanto escrevia, metia para a gaveta.
2. Qual foi o maior desafio da sua trajetória literária e o que essa experiência lhe ensinou?
O maior desafio aconteceu este ano, quando vi a minha Coleção Os Segredos destruída, porque os números 3 e 4 não foram publicados pelo editor que também se despediu de mim e de outras escritoras. Vou transformá-los agora num livro de aventuras, de ficção e sair da faixa infantojuvenil. Os últimos números já eram bem puxados e eram mais para o 3º ciclo, secundário. Fiquei igualmente com 3 romances editados («Vidas Sofridas», «Cartas ao meu eu do outro lado do espelho» e «(Des)Encontros à Beira-mar»), pagos por mim e dos quais não recebi um tostão das vendas em plataformas. Vou agora tentar arranjar estratégias para vender os meus de qualquer modo. O último é um romance com diálogos bilingues (em português e Inglês), porque o protagonista Arthur George é luso-britânico e Ana Luísa é portuguesa. O romance passa-se em Portugal e na Inglaterra.
3. Como a cultura, a história e os costumes da região onde você vive influenciam sua escrita?
Natural do Porto, vim morar para Barco, a 3,5km de Caldas das Taipas, em cujo agrupamento lecionei 35 anos, porque casei.
Não creio que o Minho me tenha influenciado nem o Porto, porque todos os meus romances (publicados e por publicar) se passam em zonas diversificadas. Conheço o meu país de lés a lés, pelas viagens de estudo com os alunos e, mais tarde, com percursos feitos com a minha irmã mais velha.
A cultura portuguesa e não só influenciou-me e muito, a arte, a História, a música… Licenciei-me em Filologia Germânica (inglês e alemão), mas só lecionei alemão no 1º ano em que lecionei (Liceu de Guimarães), ainda a acabar o curso, que tinha 5 anos, na altura. Depois fiz um curso de formação de professores de português e, por opção,deixei o inglês, e comecei a dar português.
4. Na sua opinião, qual é o papel da literatura brasileira na sociedade contemporânea?
Fui premiada no Brasil, pela Editora Hüning, na revista «Reflexões» com um 1º prémio em poesia «A Fome» e fui homenageada (em português, menção honrosa) no ano seguinte, na revista «Conexões», com o conto «Ter-se-á o mundo finalmente conectado?».
Tive um conto «O Ruivinho» selecionado para os 30 contos na Coletânea «Eu leio um conto-2021», mas foi um problema para desalfandegar os livros a que tinha direito.
Sei que a literatura no Brasil é muito ativa e tenho vários amigos brasileiros no meu Facebook e WhatsApp, uma delas já publicou uma data de livros. Nós não temos apoios e, qualquer dia, há tantas editoras como escritores. Eu optei por autopublicação, com uma editora por trás para fazer revisão, ilustração, paginação, etc para os meus livros infantis Cismei que havia de escrever livros para a minha neta e escrevi. Já tem 6, basta. Volto para os romances que são a minha praça e para a ficção científica, em que publiquei o «Ser um Dotado no século XXII», um conto que poderia ter sido um romance.
Quem sabe não farei a segunda parte: «Ser um Iluminado no século XXII?»
5. Todo escritor convive com críticas e rejeições. Como você lida com esses momentos e o que diria a quem está começando?
Neste momento, eu lido com aplausos, muita sorte, adorei, mas isso não vende livros. Sei que «santos da casa não fazem milagres» e eu tenho o problema de nem da casa ser. Vim do Porto e sou cronista no Reflexo, o jornal escrito e online da vila de Caldas das Taipas, desde a primeira hora. Comecei por sair em papel todos os meses e agora saio no online, mensalmente.
A quem está a começar que crie um site-blogue e ponha lá tudo quanto fizer. Assim, tem a casa arrumada e os outros podem ver o que está a fazer ou fez ou vai fazer.
O meu site é «Alquimia das Palavras», e o link é https://www.mariateresaportaloliveira.pt
Que teime, insista e não desista. Mas… MAS, principalmente, que escreva português correto. Se não sabe escrever que faça um curso para aprender. Depois temos atualmente o problema da IA. Sei que há livros completamente escritos na IA, publicados na Amazon, mas isso não interessa. Interessa é ver o nosso arco narrativo a desenvolver-se e as personagens a seguirem o seu caminho e, quantas vezes, se dá uma reviravolta e tudo volta quase à estaca zero. Isso acontece muito comigo, porque não faço planificações. Nem quando era professora as cumpria, agora muito menos como escritora.
Já a poetisa, os poemas saem de rajada e a qualquer hora do dia. Muitas vezes de madrugada. Aliás, eu durmo com um caderno debaixo do travesseiro para apontar ideias que surgem durante a noite ou para escrever poesia e, frequentemente, sem luz. kkkkk
6. Você acredita que um escritor nasce pronto ou é construído pela leitura, pela prática e pela experiência de vida? Por quê?
Eu nasci a gostar de escrever desde pequenita. Tínhamos de fazer quinze cópias nas férias, eu fazia sessenta. Adorava o comboio das palavras, começar a ver um sinónimo e depois procurar a primeira palavra que encontrasse. Por exemplo:lindo, bonito, resplandescente,fantástico… Fui leitora compulsiva, dos meus dez até aos meus 30 anos. Depois os filhos, a escola…
Mas, muito do que está plasmado nos meus romances, baseia-se em vivências pessoais. O Cartas é todo das minhas vivências e pedi ajuda a duas médicas para os casos mais leves. Os meus já eram pesados que chegassem, porque durante anos tive a saúde da escola a meu cargo e era eu que geria os encontros da médica com os alunos, no âmbito do PEPT 2000 (Programa Educação para Todos) em que a escola e a saúde caminhavam de mãos dadas. E, na altura, ainda não havia agrupamentos. Fiz inclusive um Curso Intensivo num Instituto Agrónimo em que médicas e professoras ficaram fechadas durante quatro dias, com formação das 9h da manhã até às 22h, com interrupção de uma hora para o almoço. Fiz um Curso do VIH Sida. Isso alargou as minhas perspetivas, que já tinha, porque a família era de médicos.
Eu tenho muitas recordações de infância (somos quatro irmãos) a que acrescento uma «memória de elefante». É muito importante partirmos das nossas vivências ou de outras que conhecemos e depois deixemos a criatividade funcionar.
7. Em tempos de inteligência artificial, redes sociais e consumo rápido de conteúdo, quais você considera os maiores desafios e as maiores oportunidades para os escritores?
Acho que, já abordei este tempo mais acima, mas, neste momento, as redes sociais não nos levam a lado nenhum (esta é uma opinião muito pessoal). Vejo quem se desunhe por dar a conhecer a sua obra e não consegue. Ou se tem um bom padrinho ou um bom editor (que não entre em competição com as suas escritoras, como era o meu caso) ou não se sai do lugar. A IA não me assusta. Nada chega ao ser humano e, quem estiver atento, descobre quando o texto foi feito ou não pela IA. Cada escritor tem um estilo próprio e já se vêm poesias que são iguais umas às outras, porque foram todas feitas pela IA. A mesma coisa com as ilustrações.
A IA pode ser útil num processo de revisão em que deteta as repetições, os ganchos que as pessoas utilizam sistematicamente, sem se darem conta. Eis a razão pela qual um livro deve respirar durante algum tempo e depois voltar-se a olhar para ele. Aparecem as falhas, as gralhas e, muitas vezes, as incongruências.
8. Qual livro — seu ou de outro autor — você gostaria que todo brasileiro lesse ao menos uma vez na vida? E por quê?
Adorava que pudessem ler um dos meus romances, o que é impossível. Assim sendo, há um escritor que me marcou profundamente. Mathew Pearl e o seu «O Clube de Dante», «A sombra de Poe», para quem gostar de terror, «O nome da Rosa» de Umberto Eco, todos os da Agatha Christie, todos os do Dan Brown, todos os do José Rodrigues dos Santos…
9. Se pudesse conversar com o escritor que você era no início da carreira, que conselho daria a ele?
O meu problema foi pôr a carreira de professora à frente da de escritora. Comecei a publicar quando me reformei e, na altura, estava doente. Comecei demasiado tarde. Deveria ter começado muito mais cedo e ter-me metido com pessoas mais fiáveis. Escrevam e não desistam. A J.K. Rawling foi recusada não sei se 16 vezes e já vendeu mais de 600 milhões de livros da Saga Harry Potter. Habituem-se ao não. O seu livro até nos agradou, mas… teimem, teimem…
10. Complete a frase: "Escrever é..."
Para mim, escrever é o ar que respiro, é o viver um dia de cada vez, é treinar o cérebro (atualmente estou com 71 anos), é viver em liberdade, é tudo o que me dá mais prazer no mundo.
Entrevista conduzida por Ironi Jaeger
30/06/2026
Se Eu Tivesse Uma Borracha

Maria Teresa Portal Oliveira
A ALQUIMIA DAS PALAVRAS

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