Se Eu Tivesse Uma Borracha

Se Eu Tivesse

Uma Borracha

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

quinta-feira, 13 de agosto de 2026


Queria ter uma borracha para apagar o temporal interior, o nevoeiro, os dedos gelados desse nascer matinal que me cobre e me percorre com o seu frio.

Queria ter uma borracha para acabar com o sofrimento que sinto à minha volta. Gritos silenciosos, que ninguém ouve. Eu ouço. Tapo os ouvidos para não ouvir, mas as sereias de Ulisses fazem soar o seu canto melodioso, atraem-me com a sua música, numa agonia lenta, quase mortal.

Queria ter uma borracha para apagar as cinzas que cobrem o mundo. São terramotos, sismos, incêndios, tsunamis, acidentes rodoviários, mortes inexplicáveis. Tudo inundam, tudo destroem. E também me destroem.

Queria ter uma borracha para apagar a indiferença dos que mandam, para riscar o mal que, rugindo dentro da Terra, encontra sempre uma forma de vir à superfície. Lavas incandescentes, chuvas torrenciais, furacões, guerras territoriais sem razão, sem humanidade, movidas apenas pela ganância.

Queria ter uma borracha para apagar os que nos arruínam, os arautos do fim do mundo, e esta névoa permanente que se me cola à pele como um segundo eu. Dedos de morte arrepiam-me a alma e obrigam-me a soltar os gritos que há tanto tempo guardo na garganta.

Queria ter uma borracha para nela embarcar, rumo ao horizonte, nesta manhã de nevoeiro, e talvez nunca mais voltar. Ficar na memória das gentes como um corpo cinzento, sem formas, que desapareceu, que partiu sem direção, sem deixar rasto.

Queria ter uma borracha para apagar tudo e deixar apenas as lágrimas de sal que escorrem do teu rosto, sejam de alegria ou de dor. Elas estão aí. E isso basta. São a prova de que estás viva, de que o desamor e a apatia são palavras que ainda não aprenderam a morar em ti.

Não tenho borracha.

Estou eu.

E a minha vontade indómita de dar a volta, de tentar controlar o que não se deixa controlar, de não me dar por vencida. Chamo todos os grandes que adoro: Camões, Torga, Pessoa, Sophia, Saramago. Peço-lhes que me deem a mão neste desassossego contínuo a que chamo vida, nesta realidade sofrida que se impõe todos os dias.

Sou uma máscara e estou rodeada de outras iguais.

Quero ter uma borracha para apagar, para riscar todos os vestígios desse sofrimento profundo que veio ao mundo para se colar às gentes.

Ah! Se eu tivesse uma borracha, começava por me apagar a mim.

A mim, que não encontro sossego. A mim, que luto contra esta imensidão de dor, de solidão, de rancor pelos insensíveis que tudo destroem e continuam a sorrir. Olham para o lado. Olham para as imbecilidades que fazem e pelas quais são aclamados. Nunca aprisionados. Nunca julgados. Nunca verdadeiramente vistos.

Queria ter uma borracha para acabar com todas estas porras e encontrar a paz.

Mas não encontro a paz.

Nem aqui.

Nem no horizonte.

Nem sequer no fim do mundo.

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